Que horas são?

segunda-feira, 29 de setembro de 2014


                        "(...)Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."



ZERO GRAU DE LIBRA


Caio Fernando Abreu


"Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente, porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. Nesse Zero Grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o Planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do Cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com Fanta e Guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete"? e o outro grunhe em resposta. Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital. Deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse Zero Grau de Libra.
Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."



sábado, 27 de setembro de 2014



"Até os 30 anos, eu carregava 50 certezas absolutas. Venho perdendo, em média, uma por ano. Se minhas contas estiverem certas, não terei nenhuma certeza categórica por volta dos 80 anos e passarei, então, a viver na dúvida.(...)"


Moisés Mendes, Jornal Zero Hora, 26/09/2014



E eu que sempre defendi minhas certezas, hoje sinto, da mesma forma. Elas já rareiam, são poucas, bem poucas. As que restaram movem meus pensamentos em direção à dúvida. Minhas certezas não geraram destino, puseram-me nos trilhos, nem sempre escolhidos. Aos vinte anos, idealista e romântica, tinha todas as certezas do mundo. Aos trinta, algumas se dissiparam no caminho. Aos quarenta a Vida trouxe-me um pacote de incertezas e o que era definitivo e sólido transformou-se em tecido delicado de possibilidades. Agora, bem perto mais perto dos cinquenta anos, bordo as horas e os dias. Ir, além, é pura possibilidade. 



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Poemas do Flávio Luís Ferrarini



DESALENTO

O capim treme no chão do meu olho
Venta
Venta no olho do furação da minha alma
Treme
Treme minha alma no varal do vento
Desalento

DOR

Escondo a dor
Atrás do muro
Verdejado de musgo
Iluminado de escuro


CORAGEM

Quando perdi meu primeiro dente de leite
Perdi a coragem que eu tinha de sorrir
Quando perdi meu primeiro grande amor
Perdi a coragem que eu tinha de amar
Quando num dia qualquer me perdi de mim
Perdi a coragem que eu tinha de voltar



Biografia do Flávio, aqui: Biografia



sábado, 30 de agosto de 2014

Primavera





"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera."


(Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014





Há dias que acordamos desesperançados, angustiados e áridos de ideias. Dias cinzentos, escurecidos, travados. Como mudar esta sintonia? Não tenho receita alguma, não conheço o caminho das pedras. Conheço as pedras. Reconheço-as, todas. Parceiras de jornada, sinalizam os atalhos e iluminam novas possibilidades. E o Sagrado se manifesta. Imenso! Quase perturbador. Uma benção para decifrar, em cada ponto que exclamamos ou interrogamos.
Minha vida guarda uma história que me orgulha, justamente por que me ensinou a caminhar entre as pedras.
Contabilizo mais bençãos do que perdas, por que aprendi a transmutar perda em benção. Conto mais felicidades do que tristezas, por que nem tudo o que parece, é. Definitivamente.
E ganhei a grandeza de compreender e perdoar, ainda que não tenha entendido, nem concordado.  Perdoar para acolher e ganhar colo, mais adiante, por outro abraço, com outro nome.  É uma iluminação pessoal, um rito de passagem, uma vontade imensa de acertar. Acertar o passo, acertar os ponteiros do tempo, acertar as contas. Acertar o alvo, que é a Vida, com leveza e dignidade, ainda que os dias amanheçam sombrios. Por que a Luz está no coração de quem se abre, de quem se entrega. É por esta fresta que o Sagrado se manifesta. Imenso!
Gratidão!





terça-feira, 29 de julho de 2014





Que Tal o Impossível?


Itamar Assumpção


Que tal se nós dois vivêssemos
Do jeito que nós quiséssemos
Sem nada que aborrecesse-nos
Que tal se tudo tivéssemos

Que tal se realizássemos
Aquilo que nós sonhássemos
Maçãs macias comêssemos
Que tal se nós beijássemos

Que tal se nós dois dormíssemos
Olho no olho acordássemos
Que tal se nós felicíssimos
Que tal se nós dois voássemos

Que tal se nós dois pudéssemos
Aquilo que desejássemos
Que tal se nós dois cantássemos
Tocássemos e nós dois mesmos dançássemos

Que tal se nós dois partíssemos
Que tal se a sós ficássemos
Que tal se ao máximo amássemos
Que tal se no céu morássemos

Que tal
Que tal o impossível
Que tal
Que tal o impossível





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por mais vida, com Suassuna.

                     Ariano Suassuna, na década de 1970.




"É claro que, objetivamente, eu sei que vou morrer. Não sei se você já notou, mas nenhum de nós acredita que morre, o que é uma bênção. A gente se porta a vida toda como se nunca fosse morrer, o que é muito bom. Porque se a gente for pensar na morte como uma coisa fundamental, inevitável e próxima, a gente vai perder o gosto de viver, vai perder o gosto de tudo. Pensar que vai morrer prejudica um pouco a qualidade de vida, e eu sou um apaixonado pela vida, amo profundamente a vida. Olhe que essa maldita tem me maltratado, mas eu gosto dela"


Ariano Suassuna





Dois momentos com a minha amiga Ana Lúcia. Por que a Vida é bonita, assim, quando nem percebemos. E amizade é o que nos sustenta.
E Ricardo é uma pessoa especialíssima. Inteligente, sensível, poeta de alma refinada e parceiro enamorado da Ana Lúcia.


Filme & café 

Jantar com Ana Lúcia e Ricardo