Que horas são?

quinta-feira, 23 de outubro de 2014




Amor como em Casa




"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa."



Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"







"Você tem obrigação de ser fiel ao que você viveu."


                                 Nélida Piñon




terça-feira, 21 de outubro de 2014





"Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida."






Paulo Mendes Campos, in "A Palavra Escrita", do livro Poemas de Paulo Mendes Campos, Ed. Civilização Brasileira.





quinta-feira, 16 de outubro de 2014







Há  três anos nascia este espaço com o apadrinhamento afetivo da minha amiga Ana Lúcia. Neste período, fiz amigos novos, cultivei os antigos e recebo visitas de quem só passa para dar uma olhadinha. Sempre foi um espaço despretensioso, sem rótulos, sem calendários, apenas um espaço para os bons registros e um tantinho de mim, em cada postagem. Nestes tempos, em que as redes sociais tomaram o espaço dos blogs, pela praticidade de reunir tudo em um só lugar, é gratificante perceber que ainda recebo visitas constantes e fiéis. Agradeço, comovida, à Ana Lúcia que insistiu para que eu me permitisse estar aqui, e a todos os amigos que me prestigiam, com muito carinho. Que possamos nos encontrar por aqui, enquanto houver poesia, nesta Vida.
Muito obrigada!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014





não sei navegar nos teus silêncios


"(se um mapa houvesse,
perder-me-ia, na urgência
de os ler)
distantes, opacos,
ensurdeço
no esforço de te entender.
insondáveis as águas
deste imenso
vazio
baixo as velas
e encosto-me à deriva das marés
que há na tua voz.
até um dia
acostar
a ti."




Rosa Maria Ribeiro




segunda-feira, 13 de outubro de 2014





" - Se te fores de mim, não volta. Mas, se voltares, não procura por mim onde me deixaste. Estarei já perto de onde começaste teu retorno, pois atrás de ti terei ido desde tua partida com todo o desejo do meu coração, com todas as palavras de súplica que conheço e com o corpo incendiado pela febre de uma paixão sem fim. Retorna então ao lugar para onde foste, que por este caminho estarei a andar, e chegarás então por trás de mim, e não pela frente, como estaria eu a pensar. Mas isso não importará, estarei tão tomado pelo encanto de te encontrar que já não pensarei sobre de onde vens, mas apenas que vieste".

Há muitos anos ele disse isso a ela. Ele continua a andar por aquele caminho, na esperança de vê-la chegar por qualquer quadrante.
Seu coração ainda é feito de fogo."



Pedro Moacyr Pérez da Silveira
Professor de Filosofia do Direito na Universidade Federal de Pelotas.




sábado, 11 de outubro de 2014




"Há quem fale
em séculos.
Eu só penso
no minuto
que passa."



Mário da Silva Brito, poeta brasileiro, em 'Areia na Ampulheta', do livro 'Jogral do Frágil e do Efêmero' (Ed. Civilização Brasileira)



terça-feira, 7 de outubro de 2014




Poema Preso


Viviane Mosè


"A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo."


Mosé, Viviane. Pensamento Chão. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008