Que horas são?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Poemas do Flávio Luís Ferrarini



DESALENTO

O capim treme no chão do meu olho
Venta
Venta no olho do furação da minha alma
Treme
Treme minha alma no varal do vento
Desalento

DOR

Escondo a dor
Atrás do muro
Verdejado de musgo
Iluminado de escuro


CORAGEM

Quando perdi meu primeiro dente de leite
Perdi a coragem que eu tinha de sorrir
Quando perdi meu primeiro grande amor
Perdi a coragem que eu tinha de amar
Quando num dia qualquer me perdi de mim
Perdi a coragem que eu tinha de voltar



Biografia do Flávio, aqui: Biografia



sábado, 30 de agosto de 2014

Primavera





"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera."


(Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.)

sexta-feira, 8 de agosto de 2014





Há dias que acordamos desesperançados, angustiados e áridos de ideias. Dias cinzentos, escurecidos, travados. Como mudar esta sintonia? Não tenho receita alguma, não conheço o caminho das pedras. Conheço as pedras. Reconheço-as, todas. Parceiras de jornada, sinalizam os atalhos e iluminam novas possibilidades. E o Sagrado se manifesta. Imenso! Quase perturbador. Uma benção para decifrar, em cada ponto que exclamamos ou interrogamos.
Minha vida guarda uma história que me orgulha, justamente por que me ensinou a caminhar entre as pedras.
Contabilizo mais bençãos do que perdas, por que aprendi a transmutar perda em benção. Conto mais felicidades do que tristezas, por que nem tudo o que parece, é. Definitivamente.
E ganhei a grandeza de compreender e perdoar, ainda que não tenha entendido, nem concordado.  Perdoar para acolher e ganhar colo, mais adiante, por outro abraço, com outro nome.  É uma iluminação pessoal, um rito de passagem, uma vontade imensa de acertar. Acertar o passo, acertar os ponteiros do tempo, acertar as contas. Acertar o alvo, que é a Vida, com leveza e dignidade, ainda que os dias amanheçam sombrios. Por que a Luz está no coração de quem se abre, de quem se entrega. É por esta fresta que o Sagrado se manifesta. Imenso!
Gratidão!





terça-feira, 29 de julho de 2014





Que Tal o Impossível?


Itamar Assumpção


Que tal se nós dois vivêssemos
Do jeito que nós quiséssemos
Sem nada que aborrecesse-nos
Que tal se tudo tivéssemos

Que tal se realizássemos
Aquilo que nós sonhássemos
Maçãs macias comêssemos
Que tal se nós beijássemos

Que tal se nós dois dormíssemos
Olho no olho acordássemos
Que tal se nós felicíssimos
Que tal se nós dois voássemos

Que tal se nós dois pudéssemos
Aquilo que desejássemos
Que tal se nós dois cantássemos
Tocássemos e nós dois mesmos dançássemos

Que tal se nós dois partíssemos
Que tal se a sós ficássemos
Que tal se ao máximo amássemos
Que tal se no céu morássemos

Que tal
Que tal o impossível
Que tal
Que tal o impossível





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Por mais vida, com Suassuna.

                     Ariano Suassuna, na década de 1970.




"É claro que, objetivamente, eu sei que vou morrer. Não sei se você já notou, mas nenhum de nós acredita que morre, o que é uma bênção. A gente se porta a vida toda como se nunca fosse morrer, o que é muito bom. Porque se a gente for pensar na morte como uma coisa fundamental, inevitável e próxima, a gente vai perder o gosto de viver, vai perder o gosto de tudo. Pensar que vai morrer prejudica um pouco a qualidade de vida, e eu sou um apaixonado pela vida, amo profundamente a vida. Olhe que essa maldita tem me maltratado, mas eu gosto dela"


Ariano Suassuna





Dois momentos com a minha amiga Ana Lúcia. Por que a Vida é bonita, assim, quando nem percebemos. E amizade é o que nos sustenta.
E Ricardo é uma pessoa especialíssima. Inteligente, sensível, poeta de alma refinada e parceiro enamorado da Ana Lúcia.


Filme & café 

Jantar com Ana Lúcia e Ricardo








As aulas do Ariano Suassuna











                                             Ariano Suassuna, na década de 1970.


terça-feira, 22 de julho de 2014



Não, o mundo não está perdido. Perdidos, estamos nós, diante da imensidão de (des)compromissos, deslealdades e desenganos. Perdidos, estamos nós, neste mundo de ar rarefeito, tempestades repentinas, ventanias inesperadas.
E falta de amor e amizade.
E lealdade, antes de tudo.
Benditos sejam os que entendem de lealdade. 
Os raros.